Amar a si mesmo e além das barreiras sociais

Sobre quando comecei a aceitar meu corpo e olhar mais para minha mente

Lembro de quando declarei greve de fome por conta de um comentário do meu pai quando era adolescente. “Só sabe dar prejuízo”, ele disse. Tem um mercadinho no interior e, vez por outra, eu lanchava algo de lá. Nossa, eu chorei muito naquela noite, além de uma queda de pressão por não ter comido quase nada o dia todo.

Nos dias seguintes, sempre que alguém me oferecia comida, eu dizia “não vou comer porque é prejuízo”. Quando disse isso pra minha mãe, ela brigou comigo. Disse pra não dar ouvidos ao meu pai. Mas, sabe, esse comentário não era sobre gastos com comida. Nunca são, se você está se aproximando dos 100 quilos.

Ver seu corpo aumentar na adolescência, sentir que as roupas não lhe cabem mais, perceber que o seu próprio corpo incomoda mais gente do que deveria realmente incomodar… Ele incomoda você. E aí a família vem e fala: “você tá muito gordinho” ou “precisa fazer regime” e coisas do tipo. E sempre falam isso porque estão “preocupados com sua saúde”.

Meu processo de autoaceitação começou não tem muito tempo, mas fez tanto progresso — em diversas vertentes. Quando comecei a entender que meu corpo é assim mesmo e se eu quiser mudar alguma coisa em mim, é porque essa coisa incomoda só a mim e não tem influência de ninguém, tudo tem ficado tão mais leve. Sei lá, é uma liberdade diferente.

Recentemente, também, descobri que mudar faz parte da minha natureza. Deixei o cabelo crescer por um ano, depois cortei diferente, tenho procurando roupas fora do meu comum, experimentado coisas novas e fugido das dores de cabeça que algumas pessoas tendem a causar. E toda essa maleabilidade foi o pilar da minha transformação mental no último ano.

Quando comecei a aceitar meu corpo gordo, no início do ano passado, chamei uma amiga fotógrafa. Para algumas pessoas, disse que o ensaio era pra divulgar o livro novo. Para outras, que era para me aceitar melhor. Bom, entendeu quem quis. Mas o propósito era realmente ativar esse lado mais amável comigo mesmo. E com isso quero dizer que passei a me cobrar menos mudanças físicas, menos cumprimento de exigências e padrões impostos pela sociedade do corpo perfeito.

Às vezes é difícil entender a mente de outra pessoa quando precisamos, primeiramente, entender a nossa. Queremos desvendar o que se passa na cabeça dessas pessoas julgando seu sobrepeso, seu jeito de se vestir, de andar de falar… Mas é você e suas opiniões que importam.

E nem é preciso ir muito longe pra começar a pensar positivo quanto a si mesmo. Apesar de todo o ódio frequente nos últimos tempos, a internet também está cheia de gente ensinando você a se amar — seja você magro, gordo ou o que for. Digital influencers têm um papel importante exatamente por serem “influenciadores”. Os serviços de streaming estão cheios de filmes, podcasts, séries e outras ferramentas de autoajuda — por mais que você julgue a utilidade de coisas desse gênero.

Não desista na primeira frustração. Eu sei o quanto ela é dolorosa. As seguintes são tão dolorosas quanto, porém vale a pena continuar. E uma hora você vai perceber que há pessoas que não preferem um tipo físico específico ou que preferem somente o seu. Também vai encontrar diversas combinações de roupas, pratos preferidos e lugares perfeitos, sem se importar com o quanto seu físico parece rejeitado pelas pessoas à sua volta.

Siga em frente. Ame a si mesmo. E não esqueça de escrever a respeito.

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.