As sementes do futuro e o caos cristão na vida de Olamina

A leitura de qualquer obra de Octavia E. Butler mexe comigo de uma forma até explicável. Afinal, não é todo dia que a leitura de uma distopia revela um futuro iniciado antes de 2024.

Em “A Parábola do Semeador”, o primeiro livro da duologia “Semente da Terra”, caminhamos com a adolescente negra Lauren Oya Olamina pelas estradas norte-americanas após a destruição do bairro murado em que vive. Já em “A Parábola dos Talentos”, vemos tudo que ela construiu ser destruído pela violência militar e patriarca disfarçada — ou não? — de conservadorismo cristão. E a vemos reconstruir tudo a duras penas.

Talvez pela tradução, não sei, mas a escrita de Butler sempre foi algo muito simples de compreender. A trama é direta, objetiva. E, não só para as partes em que Lauren narra a história — porque os dois livros trazem trechos de diários, não algo contínuo demais –, a autora faz a seguinte separação: os trechos começam dizendo o que aconteceu, ganham uma trajetória do que levou aos acontecimentos e encerram com falas entre as personagens e uma conclusão da protagonista.

É importante notar e destacar a presença de outra narradora em “A Parábola dos Talentos” além de Lauren: sua filha, Larkin/Asha. Ela decide contar a história da mãe e sua história longe dela.

No meio disso tudo, os contextos social, político e religioso americanos entram em um colapso interessante de analisar. Um cristão conservador assume o poder e seus seguidores transformam a vida no país em um verdadeiro inferno. Além de tudo, há uma guerra pela retomada do Alaska, que se tornou independente dos EUA antes de 2030.

No meio disso tudo, Lauren enfrenta pesadelos que nunca achou que fosse enfrentar. Viu sua comunidade ser destruída, sua família — os amigos que conquistou, o marido e a filha — serem levados embora de várias formas diferentes. A América Cristã vira um movimento de extermínio de outras religiões, seitas e comunidades que não seguem seus preceitos, queimando pessoas vivas e escravizando quaisquer que não aceitem se juntar a essa América.

O afrofuturismo de Octavia E. Butler é um patrimônio. Tal qual a Semente da Terra, religião criada por Lauren e que dá nome à duologia, se torna nos livros. Apesar de, em certa altura, a hiperempatia — poder/maldição da protagonista — ter sido deixada de lado, ela quase não faz falta no enredo. Na verdade, acredito que essa hiperempatia é disfarçada em vários momentos, principalmente quando Lauren passa a sentir não só o que as pessoas sentem fisicamente.

A Parábola dos Talentos” abre nossos olhos para o futuro, uma realidade não tão distante. O que você imagina para o mundo em 2024? A situação política e econômica pelo mundo pode resultar nas previsões de Butler. E será que estamos preparados para o caos premeditado?

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.

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