Gatos, luz, escuridão e espelhos

Foto: Rohan Makhecha/Unsplash

A primeira coisa que faço quando chego em casa é pegar a Pax no braço e dar um cheiro nela. É claro que esse também é um jeito de não deixar ela fugir quando abro a porta. Mas é o jeito mais carinhoso; sinto uma dose cavalar de amor assim que entro no lugar em que passo a menor parte dos meus dias.

Ela guarda o apartamento. Uma verdadeira zeladora. Esse é o tipo de sentimento que eu carrego no peito: entrar em casa e sentir o calor da minha gata, sair de casa preocupado em como ela vai ficar. Gosto de cultivar esses amores que por menores que pareçam, trazem uma carga energética boa.

É assim com as pessoas, mas demorei a aprender isso. Uma daquelas coisas que a gente só aprende errando, sabe? Até entender que pra não ter dor de cabeça eu tinha que me afastar da luz, mesmo parecendo ser o melhor caminho, meus olhos foram se abrindo.

Às vezes, é melhor estar recluso no seu silêncio, nas suas ideias. O escuro é mais seguro. A luz é só um pretexto para cegar os olhos castanhos herdados da minha mãe.

A primeira coisa que eu faço quando saio de casa é colocar meus fones de ouvido. A Pax não me deixa colocar eles dentro de casa, é essa a verdade. Ela quer porque quer brincar com eles, e você não imagina a pena existente em meu semblante por não poder brincar com ela, porque tenho que sair de casa pra trabalhar e comprar o que ela precisa.

Esse é o jogo. Alguém vai depender de você, do mesmo jeito que você vai, em algum momento, depender de alguém. Infelizmente, essas dependências se cruzam em momentos diferentes da vida. É, você só vai querer aquela pessoa quando ela não te quiser. Vice, versa, versos, .

No final do dia, a luz se torna artificial, que nem a luz do corredor quando eu chego em casa. Mas ela ainda te dá dor de cabeça. Ah, e como dá.

Impossível se livrar da luz, porque ela te conforta — principalmente se você, como eu, tem medo do escuro. E ao passo desse conforto, ela te cega. Não te aquece, não te protege, não te acolhe. Ela te cega.

Ninguém merece tanta luz. Assim como ninguém é obrigado a viver no escuro.

Morra, renasça, cresça e morra novamente. Em cada pessoa e cada ser que passar pela sua vida. Teste tudo o que puder sentir até achar o sentimento certo. E, se nada melhorar, mande o mundo explodir. Você é melhor que qualquer um que te machuque, que ofusque sua visão do mundo.

A luz vai continuar tocando, mas você se tornará um espelho que reflete tudo. E esse feixe terá de entender todos os seus sentimentos. Até mesmo os mais sentidos.

Por maior que você se torne, ainda dependerá da luz. Ainda temerá ela tanto quanto a amará. Vai pedir que ela exploda em caos em alguns momentos ou que simplesmente amenize o brilho. Infelizmente, não dá pra se livrar dela.

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.

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