Joker VS Jesus na quarta-feira à noite

Na primeira vez que vi um filme em pré-estreia, mesmo com quase uma hora de atraso, as marcas de Joaquim Phoenix como o palhaço criminoso mais famoso do mundo foram até evidentes. Será que leva o Oscar? Quem sabe.

Inusitado mesmo foi que, depois daquela sessão, beirando a meia noite, chamando o Uber tão sonhado com destino à casa e à cama, me deparei com um meme. O motorista do aplicativo se chamava Jesus. Imagine só: caí em gargalhadas na zona de embarque e desembarque do Shopping Benfica, naquelas horas da noite fortalezense. E os habitantes da parada de ônibus da 13 de Maio me olhavam como se eu fosse um louco. O próprio Joker.

Como não rir? Jesus me levaria para casa. “Jesus está chegando em um Renault Kwid”, dizia a notificação, acompanhada da placa e da cor do carro. Nunca havia ouvido falar nesse carro. Mas o que importava? Jesus ia me levar para casa. Nunca torci tanto para que um motorista não cancelasse a corrida.

Jesus chegou e, pasmem, ainda na rua e com o vidro baixo, perguntei em alto e bom tom: “Jesus?”. De pronto, ele disse “si” e eu ainda não havia captado a mensagem, mas entendi e entrei. “Boa noite”. “Boa noche”, recebi em resposta. Coloquei o cinto e pensei com meus botões “este homem não é daqui”, mas seguimos o trajeto.

Do Benfica até o Jardim América não é muito chão, porém o papo correu. Falei do filme pra ele, critiquei o atraso da sessão, falei do preço do cinema e recomendei que assistisse. Ele disse que iria, sim. Disse com um Portunhol bem claro. Perguntei, né? “O senhor não é daqui, né?”

“Soy cubano.” Depois disso, descobri que ele mora aqui há dois anos e que é muito melhor que Cuba. Fiquei pensando “até quando, né?”, mas não quis expressar. Depois disso, reclamamos dos buracos remendados pela cidade e de como a chuva afeta o trânsito e, finalmente, chegamos ao destino. Eu estava em casa.

“Valeu, Jesus! Bom trabalho.”

“Obrigado. Voy assistir o filme”, ele deixou bem claro.

“Assista legendado, viu?”

“Pode deixar.”

E eu entrei em casa rindo. Jesus é cubano e me deixou em casa.

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.

Um virginiano falando sobre literatura, séries, música e cultura LGBTQIA + Sendo resistência desde que me entendo por gente.